terça-feira

A poesia: do popular ao infantil











por Francisco Mesquita

Não são poucas as relações entre a poesia e as manifestações populares; também são várias as suas relações com a infância.

A poesia, desde suas origens, tem se pautado sob duas orientações principais: uma de reutilização do folclore e das formas populares; e outra constituída de experimentalismos e tradições. Obviamente, entre ambas, como já chamara atenção Glória Pondé: “uma gama de estilos se descortina” (1990, p.118).

Todavia, para nossos propósitos imediatos, iremos nos deter nas relações existentes entre o popular e o infantil nas orientações poéticas da contemporaneidade.

Já afirmamos que “criança gosta de poesia, sim”. E enfatizamos que a inciação poética geralmente se dá pelo viés das formas populares de poesia: principiando pelas canções de ninar, seguindo-se pelos acalantos e parlendas, passando pelas adivinhas e trava-línguas, e chegando às cantigas de roda e aos poemas de cordel, por exemplo. Todas essas são formas que exploram os sons, o ritmo, a expressividade, os jogos, a brincadeira com as palavras, enfim. Maria da Glória Bordini (1991) também destaca a relevância desses tipos de textos para a formação da sensibilidade poética nas crianças.

Muitos poetas consagrados reconheceram a importância da literatura oral e popular para a educação poética infantil e se apropriaram das diversas fontes e formas populares, trabalhando seus múltiplos sentidos. É o caso de Manuel Bandeira, Henriqueta Lisboa, Mário Quintana, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, José Paulo Paes, entre muitos.

Até mesmo o experimentalismo que marca a produção desses poetas traz em germe a vivência das manifestações folclóricas e a mediação da poesia popular. Portanto, não é só a poética infantil que tem se apropriado dos artefatos do folclore e da cultura do povo; os poetas modernistas e concretistas, por exemplo, também o fizeram com maestria.

Contudo, para trilhar o caminho do popular ao infantil na poesia contemporânea, elegemos como leitura-percurso a poética de Lenice Gomes, que despontou no Recife, na última década do século XX, e apresenta entre suas preocupações estéticas a de manter acesas as chamas da poesia popular para as crianças.

Historiadora e especialista em Literatura Infanto-juvenil, Lenice Gomes há muito tem se dedicado a estudar e propagar as nossas raízes poéticas, recriando algumas de suas principais manifestações – particularmente as parlendas e as cantigas –, em todas as suas variações e encantos.


A poetisa pernambucana publicou seu primeiro livro (Viva eu, viva tu – Viva o rabo do tatu) em 1993, pela editora Bagaço – que também se apresenta com o objetivo de valorizar a cultura popular, aliançando-a ao cotidiano. De lá para cá, publicou mais três livros: Rá-ré-ri-ró... rua (1994), Amores e flores (1995) e Lua, luar! (1997), todos pela mesma editora. Todavia, ela possui ainda alguns livros no prelo e outros inéditos.


Já a partir do título, seu primeiro livro denuncia as possibilidades que descortina. Partindo da musicalidade expressa pelas parlendas e jogos sonoros, Lenice Gome cria e recria poemas lírico-lúdicos que não deixam perder a con(v)ivência com a oralidade e surpresas do folclore. Tais características permeiam, por exemplo, poemas como “Brincadeira”:

Dança, chuva, dança...
depressa... depressa...
dança, dança alegremente
taque – teque – toque...

Chove chuva chuvisquinho
Minha calça tem furinho
Chove chuva chuvarada
Minha calça está furada

No meio da praça,
alguém desafia a nudez do dia
de cá pra lá
de lá pra cá
espalha perfume na brincadeira
cheia de idéias soltas no ar...

As manifestações folclóricas que surgem no meio do(s) poema(s) não se tornam apenas pretexto para a poematização da autora; antes, integram o texto, estabelecem os elos entre o popular e o infantil, via poesia.

A poesia popular, folclórica, desenvolvida por Lenice Gomes (e diversos outros poetas), possui uma função iniciatória à grande poesia (ou à poesia de “gente grande”), pois sua simplicidade e o ludismo de que se reveste favorecem a apreensão pelos leitores-infantis. Aqui e acolá, porém, a simplicidade cede espaço para uma pronúncia mais difícil, travada, uma dicção acelerada, como em “Pinto que pia”:

E o pinto pelado
molhado...
De orvalho?
Nada.
É só um pinto
que piiiiiaaaa.

O pinto pia,
A pipa pinga.
Pinga a pipa,
O pinto pia.
Pinto pia,
Pipa pinga.
Quanto mais
O pinto pia
Mais a pipa pinga.

Pinto
Pia
Pipa
Pinga
Quem quiser
que pinte o pinto!

A poesia mescla, assim, os textos da oralidade, do popular, com outros enigmas. Esses, mais trabalhados, mais pedagógicos, exploram e ampliam o universo mágico que perpassa nossa cultura.


Em Rá-ré-ri-ró... rua, Lenice Gomes retoma os jogos de palavras, que constituem a essência das palavras. Veríssimo de Melo distingue as parlendas da seguinte forma: “brincos, mnemonias e parlendas propriamente ditas” (1981, p.76), estabelecendo uma hierarquia, das mais fáceis às mais difíceis; dos mimos e agrados – passando pelos ensinamentos – até os divertimentos e críticas.

E a nossa poetisa faz largo uso de todos esses tipos, dando-lhes um tratamento muito peculiar. As parlendas passam a compor os poemas de maneira sutil, como se fossem seu próprio refrão. É o que vemos, por exemplo, em “Anúncio urgente”:

Procura-se com urgência
Rei com flor vermelha na lapela
Capitão carregando no bolso
mais de mil amores
Soldado caminhando pelas
ruas oferecendo ilusão
Ladrão brincando de esconde
esconde com o coração.
Quando encontrá-los
venham correndo, correndo
depressa, depressa
pra moça bonita
se alegrar
numa canção.
Rei
Capitão
Soldado
Ladrão
Moça
Bonita
Do meu
Coração.

Assim vive a moça bonita
bordada de sonhos azuis.

Cá com meus botões
A quem ela dará seu coração?

Rei
Capitão
Soldado
Ladrão.


Além das parlendas, há também cantigas e adivinhas associadas a historinhas e experimentalismos diversos.

Já no livro Amores e flores, a poetisa associa tais poéticas populares à narrativa. Num moderno “conto de fadas”, Lenice Gomes deixa transparecer passagens e ficagens da infância (dela mesma e de todos nós), com toda sua musicalidade e a força de seu imaginário. As cantigas dão o tom ritmado e plural à história contada, numa estrutura popular e melódica, resgatando o vigor característico das brincadeiras infantis. Por isso entre as melodias escolhidas pela autora está a conhecidíssima:

Apareceu a Margarida!
Olê, olê, olá...
Apareceu a Margarida!
Olé...

Essas características, que vão do popular ao infantil, são novamente enfatizadas no livro Lua, luar!. Encontramo-las, por exemplo, no poema que empresa o título ao livro (“Lua, luar!”), que (se) pergunta: “Lua luar, / quantos peixes tem no mar?”, buscando a realização de uma viagem pela fantasia;ou então no poema “Sorveteiro”:

Uni duni tê
Salamê mingüê
Meu sorvete colore
Uni duni tê

Mangaba, jabuticaba,
Goiaba,
Acerola, sirigüela, graviola
Uni duni tê.

Tilim, tilim, tilim...
tocando o sino
pelas ruas da cidade
o sorveteiro anuncia
um mundo doce e leve.

O simpático sorveteiro
entre frutos e cores
oferece todos os sabores:
abacaxi, caqui, sapoti,
maracujá, cajá, araçá...

Para alegrar
nosso coração
vamos saborear
um sorvetão?
Uni duni tê.


Lenice Gomes abarca, assim, o universo mágico e lúdico das manifestações populares, abraçando o imaginário infantil – que é perpassado por essa mesma poesia folclórica.

A poetisa, nascida em Jupi e radicada em Olinda, cultiva uma poética já denominada de uma “brincadeira com as palavras” e faz valer toda a sabedoria popular, através de suas faces poéticas. Lenice explora o caráter instrutivo desse tipo de poemas, cadenciando sua forma encantatória e (re)visitando a história de vida dos seus leitores.

A poética de Lenice Gomes revela que a poesia, em suas diversas formas, mantém estreitas relações com as manifestações folclóricas e populares e com o imaginário das crianças. Os poemas e as histórias da escritora fundem o popular e o infantil, caracterizando uma linguagem viva e vibrante, que ultrapassa limites e fronteiras – de idade, de região, de leitura etc.

Do popular ao infantil, e vice-versa. Esse é o percurso que os textos de Lenice Gomes perfazem e ultrapassam, numa dinâmica de linguagem, que somente a poesia pode alimentar/gerar. É ler para crer; e se deliciar.
Francisco Mesquita, professor, poeta e crítico literário, é mestrando em
Teoria da Literatura, na Universidade Federal de Pernambuco.

* Francisco Mesquita, professor, poeta e crítico literário

Publicado em: http://www.construirnoticias.com.br/

15 comentários:

Anônimo disse...

Estou desenvolvendo um projeto com crianças da ed. infantil e selecionei a poesia Brincadeiras.sou professora da rede municipal de teresina. Erisnalda Aragão.

Anônimo disse...

erisnalda@uol.com.br

ANNE disse...

oi meu nome é Anne
Sou da escola Jose Loureiro da Silva. Minha turma está louca para conhecer a senhora.
Gosto muito dos seus livros.
A gente está fazendo uma pesquisa sobre a senhora, entao dia 3/11/2009 vamos na feira do livro conhece-la.
BJS... ANNE

Anônimo disse...

Oi Lenice Gomes, estamos muito contentes por ter visto seu blog e ficamos muito interessados por seus livros vamos lhe ver na feira do livro dia 3 de novembro.
Somos da escola m.e.f. Jose Loureiro da Silva e nossos nomes são Ana Paula Santos da Silva
e Allysson Kercher dos Santos.
Beijos, até lá.

Anônimo disse...

Oi Lenice Gome. No dia 3 de novembro eu e a minha turma vamos a feira do livro para uma palestra com você.
Eu vi os seus livros e adorei o seu blog. Eu achei muito divertido e interessante o seu livro: "viva eu, viva tu viva o rabo do tatu".

e.m.e.f.Jose Loureiro da silva.
ass:Diennifer Niehus e Chales lecina Hoffmann.
Beijos e até lá.

Anônimo disse...

Oi Lenice, meu nome é Gabriel Araujo, irei com minha Tuma:B32 da Escola JOSÉ Loureiro da Silva no dia 03/11/2009. Eu gostaria de conhecer um pouco mais sobre os seus livros.
Eu Gostaria muito de conhece-la pessoalmente.
Um abraço

Anônimo disse...

oi lenice meu nome é matheus estudo na escola josé loureiro da silva.
vamos te vizitar na feira do livro dia três de novembro.
sou da turma B31!

Um beijo do matheus da b31...

Anônimo disse...

Lenice boa tarde meu nome é Paulo eu sou da escola Jose Loureiro da Siuva gostei muito dos livro "Na boca do mundo" muito obrigado por te me escutado. Dia 3de novembro

Anônimo disse...

Lenice sou Juliana queria saber o por que ,que você não colocou Poesias neste site ?


Beijos de Juliana

Anônimo disse...

Ola eu gosto muito de suas Poesias e gostaria de te conhecer !!!


Beijos de Juliana

Anônimo disse...

Ola meu nome é Rafael e tambéwm gostaria de checer você Lenice Gomes tenho 45 anos e te adoro !!! ♥



Beijos com Amor Rafael

Anônimo disse...

Maus ai eu escrevi errado gostaria de conhecer você também.



Beijosss ♥♥♥

Anônimo disse...

eu vou participar de um concurso de poesias, tal que o tema são suas poesias. Gostei muito delas!!
SHIRLEI SILVA.

Anônimo disse...

ai adoro os seus livros,o que eu mais gosto e a casa das dez furunfunfelhas

Anônimo disse...

adoro o seu trabalho.








BEIJOS!!!